Em Carrie, A Estranha, nova série do Prime Video, Carrie White (Summer H. Howell) é uma adolescente tímida, criada sob o rigor religioso de uma mãe controladora e alvo constante de humilhações na escola, agora amplificadas pelo alcance das redes sociais. À medida que a crueldade dos colegas se intensifica, a jovem começa a perceber em si uma força que não sabe nomear, enquanto a cidade inteira caminha, sem saber, em direção a uma noite de baile que ninguém esquecerá. Em oito episódios, Mike Flanagan transporta para o presente o romance de estreia de Stephen King, publicado em 1974.
O anúncio de mais uma adaptação de Carrie não despertou, de início, grande entusiasmo. Não por rejeição ao livro, nem às versões anteriores, do clássico de Brian De Palma (1976) ao filme de Kimberly Peirce (2013), mas por aquela pergunta que costuma acompanhar cada nova releitura: era mesmo necessária? Como se as obras fossem uma ração diária de entretenimento, consumida por hábito. Flanagan, porém, oferece uma resposta convincente, ainda que o resultado esteja destinado a dividir opiniões.
Não é de hoje que o diretor imprime sua identidade ao terror que produz, das obras menos inspiradas, como O Clube da Meia-Noite, aos grandes feitos, como A Maldição da Mansão Bly. Em Carrie, contudo, há um elemento novo: a proximidade com o próprio criador da história. King, que assina a produção executiva, chegou a preferir que o livro fosse deixado em paz, mas mudou de ideia ao ler o projeto da série e passou a contribuir com sugestões para os personagens inéditos. Após a estreia, o autor declarou, em vídeo, que Flanagan é o melhor adaptador de sua obra.
O que se vê na tela é a delicadeza de trazer para os dias atuais temas como bullying e difamação. A escolha é arriscada, já que nem sempre uma história ancorada no passado resiste à atualização. Carrie, no entanto, convive com esse desafio desde a primeira adaptação, uma vez que cada versão refletiu o tempo em que foi produzida. A presença das redes sociais e das problemáticas contemporâneas dá frescor a esta releitura, sem soar forçada ou artificial.
Summer H. Howell não poderia ter sido escolha mais acertada para o papel principal. A delicadeza, a timidez e a inquietação que a personagem exige são entregues com maestria, sustentadas por um olhar extremamente expressivo, capaz de despertar empatia e medo na mesma medida. Sua dinâmica com o elenco jamais destoa, mérito também de uma preparação que construiu com precisão os vínculos de amizade e de rivalidade que a trama pede. Seria possível acompanhar por horas a curiosidade e os pensamentos de Carrie, desde que interpretados por Howell.
O papel de Margaret White ficou com Samantha Sloyan, parceira de longa data do diretor e presente em boa parte de seus sucessos, como A Maldição da Residência Hill, A Maldição da Mansão Bly, Missa da Meia-Noite e o longa Hush: A Morte Ouve. A versão atualizada da mãe controladora é formidável: as convicções que a guiam nunca são explicitadas, mas transparecem com tanta força que provocam desconforto. Ora parece ter razão no que defende, ora causa repulsa, sinal de que roteiro, atuação e direção trabalham em perfeita sintonia.
Entre os demais destaques, Sue Snell (Siena Agudong) cumpre papel decisivo. Testemunha central dos acontecimentos que culminam no famigerado baile de formatura, ela conduz a trama de maneira madura e realista, o que não garante a concordância do público em todos os momentos. Trata-se, afinal, de uma adolescente diante da catastrófica missão de crescer. O texto lhe confere a condição de âncora e, ao mesmo tempo, de pássaro que só deseja voar.
Já Chris Hargensen, vivida por Alison Thornton, irrita do início ao fim. A personagem carrega uma trajetória familiar conturbada, mas, quando precisa decidir entre redenção e vilania, o ego fala mais alto. Não há espaço para compaixão: é uma antagonista que se ama odiar, e Thornton demonstra pleno domínio desse território.
A construção visual acompanha o rigor da narrativa. Os cenários são sutis, a paleta de cores é agradável aos olhos e a montagem privilegia sempre o melhor ângulo. A atmosfera remete às décadas passadas, à época do filme de De Palma, sem jamais entrar em atrito com o presente em que a história se passa.
Quando uma grande obra chega às mãos de um diretor à altura, o resultado dificilmente seria outro. Carrie, A Estranha responde, com folga, à pergunta que sua existência provocava: sim, ela era necessária.
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