Uma aposta inédita no catálogo nacional

Habeas Corpus estreou na Netflix em 23 de setembro, com os oito episódios liberados de uma vez. A série é apresentada como o primeiro drama jurídico da plataforma no Brasil. Criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira, com produção da Café Royal, ela se inspira no trabalho do Innocence Project Brasil, organização dedicada a reverter condenações de inocentes.

Na trama, Inez Franco (Marjorie Estiano), professora de Direito e ex-advogada criminalista, reúne um grupo de alunos para revisar a condenação de Jonathan (Hypólito). Entre eles está Marina (Any Gabrielly), bolsista brilhante cujas motivações vão muito além do interesse acadêmico.

A aposta deu retorno. A produção chegou à segunda posição entre as séries mais vistas da plataforma no país e figurou entre os títulos de língua não inglesa de maior audiência no mundo. O sucesso, porém, não veio sem divisões.

A principal ressalva do público recai sobre a estética. A fotografia e o ritmo remetem mais aos dramas de tribunal norte-americanos do que a uma linguagem própria. A própria divulgação reforçou o paralelo com How to Get Away with Murder (2014) e Suits (2011). O resultado é uma série tecnicamente polida, mas que, em vários momentos, parece desconfortável dentro dos fóruns brasileiros que pretende retratar.

O roteiro, por outro lado, colhe elogios. Os primeiros episódios apresentam muitas peças ao mesmo tempo e podem soar confusos, mas a paciência é recompensada: os fios se conectam com precisão na reta final, e a sensação de desordem inicial se revela intencional.

A produção investiu em pesquisa. Houve consultoria de advogados, visitas a fóruns e contato do elenco com integrantes do Innocence Project. Mesmo assim, profissionais do Direito apontam simplificações relevantes. A mais evidente está no próprio título: o habeas corpus protege a liberdade de locomoção, mas não substitui a revisão criminal, instrumento adequado para contestar condenações definitivas. A atuação investigativa dos personagens também ultrapassa os limites reais da advocacia.

Licença dramática é parte do jogo, mas o peso muda quando a obra se propõe a discutir erros judiciários. Uma série que denuncia falhas do sistema precisa ser mais rigorosa do que aquilo que critica.

O núcleo experiente cumpre o que promete. Marjorie Estiano sustenta a protagonista com segurança, e Vladimir Brichta, como Murilo, ex-marido e antigo sócio de Inez, rende alguns dos melhores embates da temporada.

O mesmo equilíbrio não se repete entre os estudantes. Luiza Gabus Mendes, Felipe Ricca, Nicolas Lee e Pedro Roza formam o grupo que deveria ser o coração coletivo da trama, mas acabam engolidos pela técnica dos protagonistas e funcionam mais como cenário do que como personagens.

A exceção é Any Gabrielly. Marina exige ambiguidade, uma jovem que transita entre vítima e manipuladora, e a atriz entrega essa complexidade com maturidade. O texto nem sempre a favorece, com diálogos expositivos e viradas apressadas, mas a interpretação supre o que a escrita deixa a desejar.

Marisa Orth vive Cristina “Tina” Ogino, delegada-geral da Polícia Civil e obstáculo central do grupo. A escalação contra o tipo é ousada, e a atriz transmite bem a naturalidade com que a corrupção opera nos bastidores. O problema está na construção: o roteiro insiste em vendê-la como figura temível, mas raramente mostra esse perigo em ação. A ameaça é anunciada nas falas dos outros personagens e quase nunca comprovada em cena.

Até o momento, a Netflix não oficializou a renovação, mas os números tornam uma segunda temporada provável. O desfecho resolve o que precisava ser resolvido e deixa caminhos abertos para o futuro. Falta, no entanto, a urgência que transforma um gancho em ansiedade.

Habeas Corpus termina como uma série competente e envolvente, que acerta mais na construção da trama do que na fidelidade ao tema que escolheu. Para uma estreia no gênero, é um bom ponto de partida. Uma segunda temporada terá a chance de corrigir as falhas, como pede o próprio tema da série.

Nota da MANGEEK

Habeas Corpus (2026) Primeira Temporada

Netflix

3,5/5

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