Quando a série Lanternas foi anunciada no início de 2023, durante a apresentação de James Gunn sobre a nova fase da DC — intitulada “Deuses e Monstros” —, a comunidade de fãs iniciou uma intensa onda de especulações. O principal ponto de discussão era como os arcos de um dos heróis mais emblemáticos dos quadrinhos e das animações seriam adaptados no recém-criado Universo DC (DCU).

Inicialmente, os detalhes eram escassos, exceto pela premissa de uma abordagem mais sóbria e urbana (“pé no chão”). No entanto, à medida que o elenco era anunciado, revelando nomes de peso na indústria, as ambições do projeto tornaram-se evidentes. Isso elevou as expectativas para uma superprodução capaz de consolidar a nova franquia em 2026 — um ano repleto de grandes lançamentos no gênero de super-heróis, mas estratégico para o destaque da obra. O cenário, portanto, equilibrava o ceticismo do público com uma forte expectativa por grandes realizações.

Quando questionados, os roteiristas evitaram revelar a abordagem das filmagens, os arcos das HQs que serviram de inspiração ou os papéis do elenco. No entanto, a confirmação de que a narrativa buscava fortes referências em True Detective — aclamada série policial antológica disponível na HBO Max — pegou o público de surpresa.

A escolha chamou atenção porque a premissa de Lanternas sugere, naturalmente, um tom épico e espacial no estilo Star Wars, focado em burocracia intergaláctica e batalhas astronômicas. O estilo visceral e denso de True Detective parecia distante do tom vibrante de Superman (2025) ou da irreverência de Peacemaker (2022), produções que compartilham o mesmo universo canônico.

Ainda assim, a proposta singular gerou um forte apelo. O fator “curiosidade” já garantia a audiência, mas a produção entregou mais do que o interesse inicial: Lanternas destacou-se pela originalidade, alcançou excelentes índices de audiência e agradou tanto à crítica especializada quanto ao público que acompanhava os episódios semanalmente, às 22h aos domingos.

A série manteve o mistério como força motriz até o final, incitando teorias a partir de pistas distribuídas desde a estreia. Contudo, a investigação serviu primariamente como pano de fundo para a dinâmica de “bom policial e mau policial” entre Hal Jordan (Kyle Chandler) e John Stewart (Aaron Pierre). Embora o público tentasse desvendar o enigma central, a narrativa se provou mais focada no desenvolvimento da dupla do que nas reviravoltas da investigação em si.

Em Pinguim (2024), série derivada do universo de The Batman, essa racionalidade urbana foi muito bem construída. O submundo de Gotham se mostrou tão rico que justificaria facilmente múltiplas temporadas. Porém, embora Pinguim seja um excelente exemplo de narrativa “pé no chão”, em nenhum momento a produção de Lanternas soou como uma simples cópia. A base investigativa não dependeu de clichês e, mesmo quando referências mais amplas surgem, a DC entregou um material autêntico, incapaz de ser espelhado até mesmo em seus projetos mais parecidos.

Na metade da temporada, o público é surpreendido por uma virada de trama poderosa, com força de final de temporada. O acontecimento intensificou a essência da série e, em vez de passar a sensação de desgaste, deixou um suspense instigante — um tom agridoce que apenas aguçou a vontade de continuar acompanhando os desdobramentos.

A ação é sofisticada e sem violência gratuita ou excesso de CGI para empolgar de forma superficial. A produção economizou em efeitos visuais ao limitar o uso do anel aos momentos estritamente necessários, integrando essas manifestações de poder de forma natural à narrativa. Era difícil imaginar que uma obra sobre os Lanternas alcançaria um engajamento tão positivo priorizando o drama humano, mas a condução do roteiro é tão envolvente que nada parece faltar.

O desfecho deixa margem para interpretação. As pontas soltas podem ser vistas como respostas implícitas ou como convites à reflexão do espectador. A qualidade da entrega foi tamanha que eventuais desvios de atenção tornaram-se secundários: Lanternas ocupou com maestria o espaço a que se propôs, consolidando-se como uma obra completa e autêntica.

Nota da MANGEEK

Lanternas (2026)

HBO MAX · DC STUDIOS

4,5/5

Encontrou um erro nesta matéria? Avise a redação.