Militância no cinema: panorama atual
Há algo de paradoxal no momento que o cinema brasileiro atravessa. Nunca fomos tão vistos lá fora. A militância no cinema tem lugar nessas obras. Os filmes que circulam por festivais voltam-se quase sempre para o mesmo território.
Em 2025 trouxeram ao Brasil o primeiro Oscar de Filme Internacional e tratam de ditadura, desaparecidos e violência de Estado. São obras que fazem aquilo que Walter Benjamin pedia ao historiador, escovar a história a contrapelo. Justamente por isso, despertam no espectador estrangeiro uma espécie de reconhecimento. E, em parte, do espectador brasileiro, uma reação que beira a alergia.
Convém precisar de quem se fala. Discordar de um filme é um direito. Torcer o nariz para uma direção contida faz parte da relação adulta com a arte. Ou para um roteiro que se arrasta. O que interessa aqui é outro fenômeno. O de quem rejeita a obra antes da obra. De quem transforma o trailer em pretexto e a sinopse em acusação.
De quem se mobiliza contra uma sessão de cinema como se defendesse uma trincheira. Essa recusa não nasce da experiência estética. Nasce do medo dela. E quando uma sociedade passa a tratar a lembrança como agressão, o diagnóstico fica clínico. O diagnóstico deixa de ser crítico para se tornar clínico. Há algo de doente num corpo social que reage à própria memória como a um corpo estranho.
Freud observou, num texto curto de 1914, que aquilo que não é recordado e elaborado tende a retornar como repetição. A frase cabe no Brasil com uma precisão desconfortável. Um país que nunca encarou de frente os seus porões vê os mesmos gestos e a mesma nostalgia autoritária reaparecerem a cada geração. São sintomas que mudam de figurino mas não de natureza.
O cinema político, nesse quadro, ocupa o lugar incômodo de apontar o sintoma em voz alta. Não é de estranhar que seja recebido com a hostilidade reservada aos mensageiros.
É por isso que a palavra militância, tantas vezes usada como xingamento, merece ser reivindicada sem constrangimento. A militância no cinema é tema central. Todo cinema que se ocupa do seu tempo é político. Inclusive o que finge não ser.
O Cinema Novo sabia disso. Glauber Rocha escreveu, em 1965, que a fome latino-americana não podia ser filmada como exotismo. Mas podia ser estética e denúncia. O que se faz hoje é herdeiro dessa tradição. Ainda que com outra gramática, menos grito, mais silêncio. Menos alegoria, mais intimidade. A militância desses filmes está menos no panfleto. Do que na insistência de devolver nome, rosto e casa a quem foi transformado em estatística. Lembrar, aqui, já é uma tomada de posição.
O impasse surge quando essa militância encontra um público sem lastro para recebê-la. Lastro não é sinônimo de diploma nem de erudição. É o repertório mínimo que permite a alguém sentar diante de uma imagem e suportar o que ela mostra.
Esse repertório se forma na escola que ensina a ditadura como fato documentado e não como versão em disputa, na sala de cinema que existe perto de casa e cobra um ingresso possível, numa cultura audiovisual que não se esgota no fluxo de vídeos curtos desenhado para confirmar o que o espectador já pensa.
Onde esse chão falta, o filme chega precedido de uma narrativa pronta, fabricada em trinta segundos e repetida em coro, e a sala escura deixa de ser lugar de encontro para virar campo de batalha imaginário. Isso faz com que o debate se dilua e a crítica perca profundidade.
Há também o efeito manada, menos teórico e mais visível. Uma parte considerável da hostilidade contra esses filmes não vem de quem os assistiu. Mas vem de quem foi convocado a odiá-los. Essa dinâmica transforma o ódio em uma marca de pertencimento ao grupo.
O ódio, nesse caso, funciona como senha de pertencimento. Rejeitar a obra é sinal de lealdade ao grupo, e o filme deixa de ser objeto de julgamento para virar símbolo a ser abatido. Susan Sontag escreveu que imagens de sofrimento não produzem compreensão. Elas dependem de um contexto que as torne legíveis. Sem esse contexto, a dor do outro vira ruído ou, pior, provocação.
Aqui o cinema encontra o próprio limite, e é honesto admiti-lo. Um filme pode reorganizar a sensibilidade de quem entra na sala disposto a ser afetado. Não tem poder sobre quem decidiu, de antemão, não sentir.
A tela não alcança quem lhe deu as costas, e nenhuma fotografia impecável, nenhuma atuação comovente, nenhum prêmio internacional resolve uma recusa que é anterior à arte. Esperar que o cinema cure sozinho uma sociedade adoecida é atribuir à obra uma tarefa que pertence à militância no cinema, à escola, à imprensa, às políticas de acesso e à vida pública como um todo.
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