O Brasil já tem seu nome na corrida pelo Oscar 2027. A Academia Brasileira de Cinema escolheu “Feito Pipa”, de Allan Deberton, para tentar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional. O anúncio veio em 16 de setembro, depois de uma seleção que começou com 15 longas habilitados e chegou a seis finalistas.
A partir de agora, o filme entra numa maratona que pouca gente vê: sessões para votantes em Los Angeles, entrevistas, críticas internacionais e muito boca a boca. A primeira peneira da Academia de Hollywood sai em dezembro, com a lista dos 15 pré-selecionados. Os cinco indicados serão conhecidos em 21 de janeiro, e a cerimônia acontece em 14 de março de 2027.
Um menino, uma avó e um segredo
No centro da história está Gugu, vivido por Yuri Gomes. Ele tem quase 12 anos, é apaixonado por futebol e por dança, e mora com a avó Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada, numa cidade do interior do Ceará, à beira de uma barragem. Dilma o criou com liberdade, sem se importar com o que os vizinhos dizem de um menino que não cabe no molde.
O equilíbrio se rompe quando, depois de anos de seca, a água recua e revela as ruínas de uma cidade antiga. É nesse momento que Dilma começa a mostrar os primeiros sinais de Alzheimer. Gugu decide esconder a doença de todo mundo, porque sabe o que vem depois: ir morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), que nunca aceitou quem ele é.
O roteiro é de André Araújo e Camila Agustini, e o filme tem 93 minutos. Pouco tempo para tanta coisa, e talvez por isso funcione: “Feito Pipa” não discursa sobre identidade, memória ou abandono. Ele observa um garoto tentando segurar o mundo com as duas mãos.
O que a água devolve
A imagem da cidade que ressurge da represa não é invenção de roteirista. O Nordeste conhece bem esse fenômeno: açudes construídos para enfrentar a seca engoliram povoados inteiros, e, em anos de estiagem, igrejas, ruas e cemitérios voltam à superfície como se pedissem para ser lembrados.
Deberton transforma essa paisagem em metáfora. Enquanto a memória de Dilma começa a afundar, a memória da cidade emerge. O passado que deveria estar submerso aparece, e o presente que parecia seguro começa a desaparecer. É um daqueles casos em que o cenário diz tanto quanto os personagens.
O título também carrega essa ideia. Pipa é brincadeira de criança no sertão, mas é também coisa que depende de vento e de linha firme para não se perder. Gugu é essa pipa, e a avó é a mão que segura a linha.
De Berlim a Gramado
O caminho até a escolha brasileira foi pavimentado nos festivais. “Feito Pipa” teve estreia mundial no Festival de Berlim, em fevereiro, na mostra Generation, dedicada a filmes sobre infância e juventude. Saiu de lá com o Urso de Cristal do júri jovem e o Grande Prêmio do Júri Internacional, e ainda disputou o Teddy, prêmio do festival para filmes de temática LGBTQIA+.
Em agosto, foi o longa mais premiado da 54ª edição do Festival de Gramado, com os troféus de direção, atriz para Teca Pereira, ator coadjuvante e o voto do júri popular. A combinação de reconhecimento crítico e afeto do público costuma pesar na hora em que a Academia Brasileira decide em quem apostar.
Um país que voltou a acreditar no Oscar
A escolha acontece num momento em que o cinema brasileiro sabe que pode chegar longe. Em 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, deu ao país sua primeira estatueta de Melhor Filme Internacional e mudou a forma como o público olha para essa disputa. O Oscar deixou de ser uma torcida distante e virou conversa de mesa de bar.
A concorrência interna deste ano mostra o bom momento. Entre os finalistas estavam “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, “100 Dias”, de Carlos Saldanha, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, “Nosso Segredo”, de Grace Passô, e “A Natureza das Coisas Invisíveis”. Uma lista diversa em gênero, região e linguagem.
Há ainda uma novidade nas regras: a partir desta edição, além da indicação feita por cada país, filmes que vencerem os principais prêmios de grandes festivais, como Cannes, Berlim, Veneza, Toronto, Sundance e Busan, também passam a ter um caminho para a categoria. Na prática, a disputa fica mais concorrida.
Onde e quando ver
- Festival do Rio: o filme integra a mostra Première Brasil da 28ª edição, que vai de 1º a 11 de outubro.
- Nos cinemas: estreia comercial em todo o país em 5 de novembro.
- Próximos passos no Oscar: lista de pré-selecionados em dezembro, indicados em 21 de janeiro e cerimônia em 14 de março de 2027.
Seja qual for o resultado em Los Angeles, “Feito Pipa” já fez algo raro: levou para o centro da conversa um menino queer do sertão, uma avó que esquece e uma cidade que lembra. É o tipo de história que o Brasil sempre teve, mas que só agora começa a ver na tela grande com essa força.
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