Toda grande feira de games tem uma geografia previsível: corredores largos, telões do tamanho de prédios, filas que dobram esquinas para jogar a continuação da continuação. A Brasil Game Show 2026, de 9 a 12 de outubro no Distrito Anhembi, não foge à regra. Mas, no meio desse brilho industrial, existe um estande que costuma funcionar como uma galeria independente dentro de um museu de blockbusters.

É o da Devolver Digital, que chega à feira com espaço próprio e seis jogos ainda não lançados para o público experimentar. A editora construiu sua reputação apostando no que o mercado chama de nicho e que, na prática, é onde a linguagem dos games mais se renova.

Seis obras em processo

A seleção passeia por gêneros e temperamentos diferentes:

  • Hyperdrop
  • Quarantine Zone: Miami Zero
  • Shroom and Gloom
  • Stronghold 4
  • Virtue and a Sledgehammer
  • Warhammer 40.000: Boltgun 2

Completa o estande o Heave Ho 2, lançado em julho.

Ver um jogo antes do lançamento é como assistir ao ensaio aberto de uma peça: ainda há arestas, mas também há uma honestidade que o produto final às vezes perde.

Boltgun 2 e a beleza do pixel bruto

O mais próximo de chegar às lojas é Warhammer 40.000: Boltgun 2, previsto para 14 de outubro, poucos dias depois da feira. O jogo dá continuidade à campanha do primeiro título, com novos personagens, armas, inimigos e cenários, e uma estrutura que se ramifica.

Boltgun pertence a uma linhagem que olha para os anos 1990 sem nostalgia passiva: a estética retrô aqui não é enfeite, é escolha de linguagem. O pixel grosso, a velocidade, o ruído, tudo remete a uma época em que os jogos de tiro eram quase música industrial.

Shroom and Gloom: um bestiário de fungos

Se Boltgun é barulho, Shroom and Gloom é atmosfera. O roguelite combina exploração de masmorras com combate por cartas, usando um baralho para explorar e outro para lutar contra criaturas fúngicas, que depois podem virar ingredientes.

Há algo de fábula sombria nessa premissa: um mundo apodrecido onde o inimigo também é matéria-prima. É o tipo de ideia que só floresce longe da pressão dos grandes orçamentos.

O que está por vir

Virtue and a Sledgehammer chega em 27 de outubro, e Hyperdrop só é esperado para 2027. A feira se torna, assim, uma das primeiras janelas para títulos que ainda vão levar tempo até encontrar seu público.

A Devolver também traz ao Brasil a artista de UI/UX da Auroch Digital, estúdio por trás de Boltgun 2, e Justin Massongill, community manager da Big Fan Games. É raro poder conversar com quem desenha a interface de um jogo, a parte mais invisível e decisiva da experiência.

Por que o independente importa

Os grandes estúdios fazem os jogos que movem a indústria. Os independentes fazem os jogos que movem a linguagem. Quando uma feira do tamanho da BGS abre espaço para esse segundo grupo, ela lembra ao público que o videogame não é só entretenimento de massa: é também um território de autoria, de experimentação estética e de risco.

Vale atravessar o pavilhão até lá.

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