Há onze anos, a Rua da Moeda deixa de ser passagem para se converter em palco. No último sábado (17), o Festival Rock na Calçada voltou a ocupar o Bairro do Recife para festejar sua trajetória, reunindo nomes da cena underground da cidade em torno de um tema que atravessou toda a programação: a força da mulher latino-americana. Ao longo da noite, mais de 50 profissionais da música e do audiovisual da capital pernambucana passaram pelo palco, entre eles convidados de trajetória reconhecida.

O MANGEEK acompanhou de perto os bastidores e o backstage da Íris Negra, uma das atrações de maior destaque da edição, e de seus convidados: Beto 1Bob, vocalista e líder da banda Setepalha, e Dúvida, multiartista que escolheu Pernambuco como morada.

Nos bastidores, a cena se repete com uma naturalidade que já não surpreende. A Imperatriz, líder da Íris Negra, é tietada pelos próprios técnicos da cena underground recifense, gente acostumada a ver artistas de perto e pouco afeita a deslumbramentos. Do outro lado da grade, o público mantém a fidelidade de quem acompanha a banda há tempos: pede músicas, canta junto e aguarda, com ansiedade visível, aquela que notoriamente é a sua favorita.

O magnetismo tem explicação. A Imperatriz transita entre múltiplas facetas com um profissionalismo que atrai o olhar dos artistas locais como um ímã. Não seria exagero atribuir parte desse efeito à figura da bruxa, personagem recorrente em suas composições, que ela parece incorporar diante do público. Não a bruxa caricata dos contos infantis, mas a figura histórica da mulher que sabe demais, perseguida justamente por isso, e que a arte latino-americana vem reivindicando como símbolo de autonomia. Carismática e sorridente nos bastidores, brava e potente sob os refletores, ela sustenta uma postura formidável, coerente com o tema escolhido para esta edição.

No palco, a formação reuniu o parceiro de duo, Luar Rubro, ao baterista Wesley Alves e ao guitarrista e violinista Thiago Indra. A combinação ampliou o alcance sonoro da banda, que já transita entre o rock alternativo, a psicodelia nordestina e a música eletrônica, e deu ao show uma densidade rara em apresentações ao ar livre.

O espetáculo também foi espaço de posicionamento. Luar Rubro aproveitou o momento para uma intervenção política em defesa da Palestina, pelo fim da escala 6×1 no Brasil e contra o bolsonarismo. Embora deixe claro que não se coloca como defensor de Lula, afirmou reconhecer o peso do segundo turno das eleições e declarou que o presidente terá o seu voto. Entre as participações especiais, Beto 1Bob também manifestou apoio ao presidente e dividiu com a banda “Heavy Malungo”, composição sua e um dos sucessos da Setepalha.

Um dos momentos mais delicados da noite veio com “A Lua”, acompanhada pela performance da bailarina Luna Kali, parceira artística da banda. Seu corpo traduziu em gesto aquilo que a canção sugere em som, numa coreografia que oscilava entre a contenção e o transbordamento. A dança não funcionou como ornamento, mas como outra camada de linguagem, reafirmando a vocação multidisciplinar que distingue a Íris Negra na cena independente.

Na cena independente, gestos como esses não soam como desvio do repertório, mas como extensão dele. Festivais gratuitos, realizados na rua e sustentados pela própria comunidade, sempre foram também espaços de discussão pública. Ali, a fronteira entre o show e a assembleia é mais tênue do que nos grandes palcos.

O encerramento foi grandioso. Com “A Bruxa” e a participação de Dúvida, o palco se converteu em um verdadeiro ritual. Luz, voz e corpo trabalharam em conjunto, e o público respondeu com aplausos efusivos e gritos de euforia, em um espetáculo construído com rigor e entrega. Não foi apenas uma participação especial, mas um ritual artístico e político, desses que se contam depois com a vaga sensação de privilégio.

Sorte de quem estava lá para ver.

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