Há bandas que sobem ao palco para tocar. E há as que sobem para instaurar um acontecimento. A Íris Negra pertence ao segundo grupo. Neste sábado (17), na Rua da Moeda, a banda recifense leva ao Rock na Calçada não apenas um repertório, mas um rito.

O núcleo é enxuto. Um duo formado pela Imperatriz dos Graves, nome artístico de Serena Regina, e pelo guitarrista Luar Rubro. Baixo e guitarra, peso e atmosfera. A partir dessa base mínima, a banda constrói um território próprio, onde o rock alternativo encontra a psicodelia nordestina e a música eletrônica. Não se trata de colagem de gêneros. Trata-se de linhagem.

Pernambuco conhece bem essa tradição. Nos anos 1970, discos como Paêbirú (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho, já provavam que a psicodelia podia nascer do sertão e do mangue, e não apenas de Londres ou da Califórnia. A Íris Negra é herdeira dessa ousadia. Ainda que com outra gramática. Menos viagem lisérgica, mais introspecção. Menos paisagem, mais corpo.

É justamente o corpo que ocupa o centro da apresentação no festival. Para a ocasião, o duo se expande em uma formação especial, com performances de dança, intervenção artística e participações especiais. O show deixa de ser concerto para se aproximar da instalação, do teatro e do ritual. A música continua no comando, mas divide o espaço com o gesto, a imagem e o movimento.

Nada disso é ornamento. A estética sempre foi parte da linguagem da banda, e não um acessório dela. Basta olhar para “Raven”, terceiro capítulo do EP de estreia, Incognocivo (2025). O videoclipe, produzido pela Subverso LAB em parceria com a Cabraquente Filmes, aposta em contrastes de luz e sombra e em uma carga simbólica que transforma a canção em cerimônia. “É uma música sobre autoalentar-se, sobre se libertar do que te consome por dentro”, resume a Imperatriz.

A frase ajuda a entender o que está em jogo. A Íris Negra não oferece histórias com começo, meio e fim. Oferece estados. Transformação, autoconhecimento, liberdade. Temas que não se explicam, apenas se atravessam. E atravessar exige presença.

No palco da Rua da Moeda, essa presença ganha uma voz a mais. A cantora Dúvida, que recentemente dividiu o palco com o BaianaSystem no Festival Pernambuco Meu País, em Caruaru, se junta à banda na reta final, ao lado de uma intervenção de Luar Rubro. O encontro não é casual. A edição deste ano do festival tem como tema a força da mulher latino-americana, e poucas propostas da cena local encarnam essa ideia de forma tão literal quanto uma banda comandada por uma imperatriz.

Há algo de político nisso, ainda que sem panfleto. Ocupar a rua com uma arte que recusa o óbvio já é uma tomada de posição. Em um tempo em que a música circula em fragmentos de quinze segundos, desenhados para serem consumidos e esquecidos, a Íris Negra insiste na duração, no mistério e na experiência compartilhada.

O convite está feito. Não para assistir a um show, mas para estar dentro dele.

Encontrou um erro nesta matéria? Avise a redação.