Um intervalo que não foi silêncio
Desde Matriz (2019), Pitty não lançava um álbum de inéditas. A ausência, porém, nunca significou inatividade. Nesse período, a cantora lançou o EP colaborativo “Casulo”, fez trabalhos ao lado de Nando Reis e celebrou os 20 anos de “Admirável Chip Novo”, incluindo o álbum de releituras “Admirável Chip Novo (Re)Ativado”. Foram projetos que revisitaram o passado e dividiram espaço com outros artistas, mas deixaram em aberto o que ela teria a dizer sozinha.
A resposta tem data marcada. O novo álbum, “PITTY”, chega às plataformas digitais em 16 de outubro pela gravadora Deck. É o sexto disco de inéditas da baiana e o primeiro após sete anos.
O disco que se impôs
A origem do projeto ajuda a entender a proposta. O álbum começou a tomar forma no fim de 2025, quando Pitty reduziu sua rotina profissional, e a princípio não havia um plano definido para transformar as composições em disco. A expressão “caneta fritando” já circulava no começo de 2026, quando a cantora deu as primeiras pistas sobre o então chamado “P6”. Em abril, no podcast “Mano a Mano”, de Mano Brown e Semayat Oliveira, ela confirmou o lançamento.
A própria artista define o trabalho como “o primeiro disco da minha vida”. A frase pesa mais quando se observa o grau de controle sobre a obra: Pitty assina letras, melodias e riffs, participa da coprodução musical e conduz a estética e a narrativa do disco.
Batizar com o próprio nome um sexto álbum, e não um de estreia, é uma escolha simbólica. O Blur fez movimento semelhante em Blur (1997), seu quinto disco, ao usar o título homônimo para marcar uma reinvenção, e não uma apresentação. No caso de Pitty, o gesto soa como reafirmação de identidade depois de anos dedicados a releituras e parcerias.
“Sobremesa” como cartão de visitas
O primeiro single já está disponível. “Sobremesa” destaca as guitarras e aposta em uma letra marcada por ironia, desejo e intensidade. Para quem acompanha a cantora desde os anos 2000, a faixa aponta para um retorno às origens, e o diagnóstico vem de quem conhece o percurso de perto. Rafael Ramos, produtor de todos os álbuns da carreira de Pitty, afirma que a música lembra a artista no começo, só que hoje, e ainda afiada.
A leitura é promissora, mas carrega um risco conhecido: a comparação com Admirável Chip Novo (2003) acompanha cada novo lançamento da cantora. O desafio do disco é soar vigoroso sem depender da nostalgia.
Do estúdio ao palco
A turnê não espera o público digerir o álbum. A estreia acontece em 17 de outubro, no Espaço Unimed, em São Paulo, um dia depois do lançamento oficial. A primeira sequência, entre outubro e dezembro, foi pensada para casas que permitam o show em sua extensão total, com as músicas novas no centro do repertório, sem abandonar os grandes sucessos.
Pitty resume a intenção do trabalho como estar “entre a roda e a pista, entre o peso e a intimidade”. Na prática, o show deve alternar momentos de intensidade com trechos mais intimistas.
O Nordeste na rota
A agenda já reúne dez cidades em sete estados: São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Vitória, Ribeirão Preto, Sorocaba, Balneário Camboriú e Leopoldina. Entre as datas confirmadas estão Belo Horizonte em 21 de novembro, Recife em 28 de novembro, Vitória em 5 de dezembro, Ribeirão Preto em 12 de dezembro e Sorocaba em 19 de dezembro.
Recife, com show no Classic Hall, é por enquanto a única parada nordestina. Chama atenção a ausência de Salvador, cidade natal da cantora, embora novas localidades devam ser anunciadas.
Entre a expectativa e a prova
Tudo indica um retorno pensado com cuidado: autoria centralizada, single com identidade clara e uma turnê desenhada para o disco, e não o contrário. O que ainda não se sabe é se as faixas sustentam, em conjunto, a ambição do discurso. Chamar um trabalho de “primeiro disco da vida” é uma promessa alta, e a partir de 16 de outubro ela deixa de ser intenção e passa a ser julgada pelo público.
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